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Não me surpreenderia que o leitor estivesse à espera de um artigo que dissesse algo do género "como o cão é um animal de matilha, aprende com o líder o que pode e não pode fazer". Esta linha de pensamento daria um bom guião para um filme do Walt Disney e nada tem de científico para a apoiar. Mas infelizmente, prevalece, e releva para segundo lugar a ciência chamada análise do comportamento.
Todo o animal dotado de um sistema nervoso central aprende da mesma maneira e através de dois tipos principais de aprendizagem. As únicas diferenças são:
1) o que motiva cada espécie a comportar-se como se comporta;
2) o que a fisionomia de um animal lhe permite fazer.
Ou seja, eu sou motivada por notas de 50 €, enquanto um cão é motivado por carne. Eu posso aprender a fazer o pino, porque a minha fisionomia o permite; o cão não.
Quais são os dois tipos principais de aprendizagem? O condicionamento clássico e o condicionamento operante. São tipos distintos de aprendizagem, mas que ocorrem em simultâneo.
O condicionamento clássico tem a ver com o cão formar uma associação entre dois eventos, ou coisas, ou situações. Por exemplo, associar a trela ao passeio, associar o clicker à comida, associar o carro à náusea, associar o churro a um jogo de tracção. O condicionamento clássico só afecta reflexos e emoções - a trela, ao ser associada ao passeio, causa excitação; o carro, ao ser associado à náusea, causa medo. O condicionamento clássico ocorre sempre através de apresentarmos ao cão algo neutro seguido imediatamente por algo que já tem significado para ele. Por exemplo, se eu mostrar uma trela a um cão, ele é capaz de mostrar alguma curiosidade mas pouco mais. Mas se eu, repetidamente, lhe puser a trela e o levar a passear, a trela acaba por causar excitação, porque prevê o passeio. Em resumo, o condicionamento clássico ocorre se um evento / coisa / situação anteceder e prever outro.
O condicionamento operante tem a ver com o cão formar uma associação entre um comportamento e a consequência imediata desse comportamento. Por exemplo, aprender que sentar ao comando resulta na entrega de uma recompensa; puxar à trela resulta no condutor parar de caminhar. O condicionamento operante afecta os comportamentos voluntários tais como: ladrar, saltar, deitar, correr, etc.
Para além do cão formar uma associação entre um comportamento e a sua consequência imediata, também aprende a alterar o seu comportamento em função dessas consequências. Para todos os comportamentos voluntários, existem 4 consequências possíveis. Duas delas aumentam a probabilidade de um comportamento se repetir de futuro, e duas delas diminuem essa probabilidade. Essas consequências são: o reforço positivo, o reforço negativo, o castigo positivo, o castigo negativo.
Por reforço positivo entende-se a entrega de algo agradável. Por exemplo, o cão senta e damos-lhe um pedaço de comida. Por reforço negativo entende-se a cessação de algo desagradável. Por exemplo, deixar de bater no cão quando ele pára de ladrar. Por castigo positivo entende-se a aplicação de algo desagradável. Por exemplo, o cão puxa a andar à trela e sofre um esticão. Por castigo negativo entende-se a remoção ou omissão da entrega de algo agradável. Por exemplo, eu peço um deita, o cão senta-se e não lhe dou um pedaço de comida.
É o reforço positivo e o reforço negativo que aumentam a probabilidade dos comportamentos se repetirem de futuro. É o castigo positivo e o castigo negativo que diminuem essa probabilidade.
À priori, pode parecer que o treino de um cão será muito mais eficaz se utilizarmos os 4 tipos de consequências referidas neste artigo. Na realidade, é menos eficaz porque tanto o castigo positivo como o reforço negativo têm sérias desvantagens. Essas desvantagens serão abordadas num próximo artigo.
Copyright © 2008 Alexandra Santos